Quem tem medo das mudanças climáticas?

Consternados com as informações na mídia sobre mudanças climáticas? Incomodados com as imagens de fim do mundo ligadas ao tema? Ou tranquilos, achando que tudo não passa de intriga da oposição? Como afinal nós brasileiros nos sentimos em relação a isso?

Essas perguntas têm nos perseguido desde que eu, Jonathan, Rita e Antonio decidimos criar a CoClima há três meses. Estamos no grupo dos preocupados, mas se sozinhos ou acompanhados não sabemos ao certo. No último post, mostramos que existem alguns dados na internet sobre o assunto, mas ainda sentíamos falta de algumas infos. 

Foi assim que entre 5 e 25 de julho nos aventuramos nessa empreitada de realizar nossa própria pesquisa. Criamos dois questionários online praticamente iguais: um no Google forms para ser distribuído por Whatsapp e outra numa ferramenta chamada Survey, distribuída pelo Facebook via impulsionamento. A ideia de ter dois questionários separados foi ir além da nossa “bolha” social. Depois juntamos tudo e analisamos no excel.

Curiosos? Vamos aos resultados?

O primeiro resultado, que nos deixou muito felizes, foi o alto número de respondentes: 779 pessoas em 20 dias. Ao juntar as duas fontes de pesquisa, a amostra ficou bem distribuída tanto em termos de idade quanto de renda. Contudo, há quase o dobro de mulheres em relação aos homens. Achamos que isso pode dever-se a um maior interesse das mulheres em responderem à pesquisa e vamos ver porque logo adiante. 

Primeira surpresa: Quando perguntados sobre seu nível de preocupação com mudanças climáticas, 59% das pessoas (homens e mulheres) disseram estar muito preocupadas e 33%, mais ou menos preocupadas. Apenas 6% estão pouco preocupadas e míseros 2% se consideram nada preocupadas. 

Sabemos que as pessoas que não se preocupam com o tema dificilmente responderiam uma pesquisa à respeito, mas ainda assim, esses números nos surpreenderam. Não estamos sós!

Ainda que hajam muitas pessoas preocupadas de ambos os sexos, há mais mulheres que homens entre os muito preocupados, 65% e 35% respectivamente. A preocupação também aumenta significativamente com a idade, mas em todas as faixas etárias a proporção de “muito preocupados” está acima de 50%. A preocupação independe da faixa de renda dos respondentes. Isso indica que, ao contrário do que alguns acreditam, as mudanças climáticas não são um tema importante apenas para as classes mais altas. Afinal, já há diversos estudos que demonstram que são os mais pobres sofrem com maior intensidade as consequências negativas (UN DESA. 2018).

A grande maioria dos respondentes (83%) acha que ainda é possível reverter as mudanças climáticas, mas admite que será difícil ou, ao menos, não muito fácil. Além disso, acreditam que essa responsabilidade é compartilhada por cidadãos, empresas e governo, em ordem crescente de relevância. 

Os cidadãos que nos responderam estão sim dispostos a dar sua contribuição: 86% contribuiria com plantio e conservação de florestas, 67% boicotariam empresas poluidoras,  66% conseguem diminuir o uso de carro, 57% se dispõe a consumir menos carne, 12% investiria em créditos de carbono e  10% não saberia o que fazer. Obtivemos várias outras respostas interessantes para essa pergunta, como: diminuir a igualdade social, instalação de energia solar, reciclagem de lixo, compostagem de orgânicos, diminuição do uso de plásticos, etc..

São todas atitudes muito válidas. As opções de múltipla escolha embasaram-se nas maiores fontes de emissão de gases do efeito estufa hoje no Brasil que são:

  • 1° desmatamento,
  • 2° agropecuária,
  • 3° setor energético, incluindo transportes e
  • 4° processo indústrias (Brasil, 2019).

Muita gente apontou a falta de meios efetivos e acessíveis como os fatores que mais os limitam a agir em resposta às mudanças climáticas (69% e 66%, respectivamente). Outros 62% apontaram a falta de dinheiro e de informação como sendo fatores importantes.

Pois é, com tanta tecnologia por aí, será que ainda existe um mecanismo de baixo custo para ajudar as pessoas colocar em prática sua vontade de agir? Bom, se não existe, acho que precisamos inventá-lo.

Brasil. Brazil´s Third Biennial Update Report; To the United Nations Framework Convention on Climate Change. 2019. Disponível em: https://sirene.mctic.gov.br/portal/export/sites/sirene/backend/galeria/arquivos/2019/05/31/20180228_BRABUR3_ENG_FINAL.pdf  Acesso em 30/07/2020

UN DESA – United Nations Department of Economic and Social Affairs Economic Analysis. World Economic And Social Survey 2018: Frontier Technologies For Sustainable Development. Disponível em: https://www.un.org/development/desa/dpad/publication/world-economic-and-social-survey-2018-frontier-technologies-for-sustainable-development/   Acesso em 30/07/2020

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